Novelinha

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Narrador - Certo ditado diz que o que começa errado vai terminar errado. Isso talvez explique porque alguns relacionamentos são tão complicados. Nosso ancestral do sexo masculino costumava arrastar sua mulher puxando-as pelos cabelos. Assim, demonstrava que ela era posse dele. Não sei por que puxei esse assunto, mas quero concluir que a coisa mais normal num relacionamento é a briga. E é com uma briga que nossa história começa hoje.
Ele - Como assim você "se apaixonou"?
Ela - Não dá pra controlar. A pessoa certa aparece na nossa vida e as coisas acontecem naturalmente...
Ele - Pela terceira vez em um mês?
Ela - As coisas simplesmente aconteceram...
Ele - Mas você namora é comigo, Marcela. Parece que você tem dificuldade de lembrar que você é minha namorada.
Ela - Olha, esse lance de ser de alguém é complicado. Eu pertenço a mim mesma.
Ele - E eu pertenço ao Clube dos Idiotas, pelo visto.
Ela - Quando se ama, se deixa livre.
Ele - Livre pra ficar com a torcida do Flamengo?
Narrador - Permitam-me interromper um pouco essa conversa porque os ânimos estão exaltados. Mas lhes garanto que a briga está no nível das ideias. Ele gostava daquele jeito independente dela. Ela meio que gostava daquele ciumezinho dele. São três anos de namoro e... Opa! Um momento... Bom... Ela deu um belo tapa no rosto dele. E... Bem... Apareceu um cara pra separá-los.
Ele - Sua idiota!
Ela - Seu grosso!
Cara - Calma, gente. Mas por que vocês estão brigando?
Narrador - Essa pergunta é interessante. Lembro como se fosse ontem...
Ele - Seu nome é Marcela, né?
Ela - Sim. A gente se conhece?
Ele - Eu te sigo no Insta.
Ela - Ah.
Ele - Calma, calma, não sou um stalker.
Ela - Ah.
Narrador - Viram, amigos? Aquele climão não poderia resultar num bom namoro. Mas não é que deu? Isso reforça minha teoria de que essa coisas só acontecem quando as duas pessoas são bonitas.
Ela - Nossa, amor, já estamos juntos há um ano.
Ele - E eu te amo do mesmo jeito...
Narrador - Vocês não podem ver, mas agora eles estão se agarrando. Vou até ficar de costas pra não atrapalhar.
Ela - Amor, tu já ouviu falar de amor livre?
Ele - Claro, Cela. O verdadeiro amor só pode existir quando há liberdade. Se você ama, deixe-o livre, se voltar é porque...
Ela - Estou falando sobre relacionamentos abertos.
(silêncio)
Narrador - Pessoal... Sinto cheiro de treta.
Ela - Eu acho uma ideia linda, explorar o amor em sua expressão máxima.
Narrador - Pessoal... Vocês precisam ver a cara do rapaz. Ele não deu a mínima quando ela apareceu de cabelo azul-turquesa, que por sinal ficou bizarro. Nem quando ela foi ao aniversário da mãe evangélica dele vestindo, acreditem, uma micro-saia. Mas nada se comparava ao constrangimento daquele momento.
Ele - Nossa, dois anos de namoro já... lembro do começo de nossa história como se fosse hoje.
Ela - Olha, Cláudio Renato...
Narrador - Cláudio Renato?
Ela - Eu queria te apresentar a Clara...
Narrador - Cláudio Renato? E eu achando que meu nome era feio...
Ele - Oi, Clara. Você estuda com a Marcela?
Ela - Então...
Narrador - Gente, esse 'então' é tipo uma facada.
Ela - Eu estou gostando dela.
Ele - Gostando? Gostando tipo... gostando?
Clara - Gostando tipo gostando muuuito.
(silêncio)
Ela - A Clara é divertida, inteligente, meio nerd, canta, faz arquitetura, teatro, beija super bem...
(silêncio)
Ele - Tu veio apresentar ela pra mim? Parece que tu quer apresentar ela é para os teus pais!
Ela - Não é bem assim. Estamos ainda apenas nos conhecendo...
Ele - Pelo visto EU estou apenas ainda te conhecendo...
Ela - Nossa, esqueci que tu é muuuito antiquado.
Narrador - Ôrra...! Antiquado?
Ela - Ele é antiquado, sim!
(silêncio)
Narrador - Eh... eu sou o narrador... você... meio que... não deveria falar comigo.
Ela - É que tu sempre fica me criticando. A cor do meu cabelo, o tipo de roupa que eu uso...
Narrador - Eu apenas descrevo. Tenho que enriquecer com detalhes para as pessoas que estão me ouvindo.
Ela - Ah, meu amigo. Eu sei bem o que é criticar. Não aguento mais o machismo de vocês dois.
Ele - Machismo?
Ela - Já já eu falo contigo, Cláudio. Fica aí na tua.
Narrador - Olha, minha querida...
Ela - Ha-ha-ha. Tua querida? really? Eu exijo uma mulher pra narrar minha vida.
Narrador - Ha-ha-ha. Tu tá é doida.
Clara - Pessoal, eu também trabalho como narradora...
Ele - Grandes bosta.
Ela - Per-fei-to, Clara! Sinta-se contratada!
Narrador - Marcela, você não pode simplesmente me trocar assim.
Ele - Bicho, fica na tua. Marcela, você não pode simplesmente me trocar assim.
Ela - Por que não? Vai querer me arrastar pelos cabelos agora?
Ele - Não, eu... espera. Clara, vou te avisando que a Marcela é assim. Ela pode te trocar por outra pessoa assim, do nada.
Clara - Olha, como sou a narradora agora, tenho acesso ao relatório do passado e do futuro da vida dela. E estou lendo aqui na ficha que eu e ela seremos muito felizes. Tipo assim, pra sempre. Muitas viagens, muitos vinhos, ótimas cenas picantes...
Ele - E eu? Como fico?
Clara - Desculpa, eu só tenho acesso aos dados DESTE relacionamento. Você está fora dele, lembra?
Ela - Girl power!
Ele - Eu só... Era pra esta ser nossa linda história de amor.
Ela - Mas é uma linda história de amor. Eu finalmente encontrei o meu amor.
Ele - Pôxa, que legal. Pena que eu esqueci os fogos de artifício no bolso da minha outra calça...
Ela - ôh, sem sarcasmo. Quero que você fique feliz por mim.
Narrador - Oi, pessoal, lembram-se de mim? Caso não, sou eu, o narrador.
Ela - Ex-narrador, meu querido!
Ele - vocês são loucos...
Narrador - Continuando. Só passei pra dizer uma coisa. Desculpa, Marcela, eu fui grosso contigo. Na boa, quero que você seja feliz nessa sua nova jornada.
Ele - Alguém me tira daqui!!!
Narrador - Cláudio, você quer que a história termine bem, mas na verdade você só quer que a história termine do SEU jeito. É um pouco egoísta de sua parte, não?
Ele - Mas eu não fiz nada de errado. Eu sou um cara muito do bem. Carambas, eu estudo violoncelo!
Ela - Nossa, como eu detestava aquele violoncelo...
Clara - Mas a vida não é um conto de fadas onde tudo sempre terminam bem, onde tudo tem uma lição de moral. Estamos na vida real, amigo.
Ela - É foda mesmo.
Clara - Não tem como saber se vamos nos dar bem ou não. Às vezes independe da gente.
Narrador - E no começo deixei bem claro que era uma história avulsa sobre um relacionamento que começou errado e terminou errado. Nem todo lance é assim. Sei de romance que começou terrível e terminou lindo, mas o seu deu o azar de ser.
Clara - Isso! Uma hora o relacionamento de vocês iria ser parado na blitz. E você nem percebeu que ela estava com o amor vencido já há um tempo.
Ela - Um ano. Dois meses. Treze dias.
(silêncio)
Ele - Posso estar maluco, mas acho que aprendi alguma coisa com vocês. Eu tenho que ficar atento ao meu namoro. Fazer meu melhor, independentemente do que vai acontecer. Mas saber que às vezes a melhor coisa que pode acontecer em um namoro é ele ter um fim, sem forçar a barra.
Narrador – Sendo assim, vou quebrar teu galho e revelarei o que vai acontecer em teu futuro. Você vai ficar um tempo ouvindo Los Hermanos, O Teatro Mágico e Guilherme Arantes, mas depois vai ficar bem. Tua historia será gravada em áudio. E ela vai rodar de celular em celular. Até que ela encontrará alguém, em algum lugar, que precisava ouvir isso tudo e finalmente saberá tomar a atitude certa.
Ela – Ou pelo menos vai se divertir com essa tua história maluca...
Ele – Vão se lascar vocês tudinho rs


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