Carta Certa Curta


::.

Minha vida segue se escrevendo.
Quer mais um pouco, mas está farta.
Uma letra a mais é uma letra a menos.
Ela é carta.

Minha vida aguarda esse momento.
Mais cedo ou mais rápido, tarde ou lento.
Ponto final que me liberta.
Ela é certa.

Minha vida de tinta se desgastando.
Alguns nem me leem, só ficam olhando.
Últimas linhas que o tempo me furta.
Ela é curt...

::.

Jamerson Belfort Nogueira
www.livroabertonoescuro.blogspot.com
jamys2006@gmail.com

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::.

Palavras Inexatas

::.
Às vezes a palavra é teimosa e se recusa a fazer o sentido daquilo que se escreve, deixando a frase com a respiração ofegante, manca e atolada. Então a história tropeça, cambaleia e escurece em frente ao leitor.
Quem já tentou escrever sabe que este ofício não é isento de armadilhas.
Mas a primeira tentativa não pode virar a última, pois nada se compara à alegria de encontrar as palavras que acendem um texto.
O verbo, um soldado de inteligência humilde, pensa apenas nas imagens que despertam no fundo de si mesmas.
Na verdade, a palavra esconde uma esperança secreta, firmemente atrelada à letra: compartilhar os contornos de uma história que mereceram a atenção de alguém, mesmo que apenas a do escritor.
Além do gliter e paetês que atacam a nossa lucidez, a palavra, penso eu, nada mais quer além de gritar o silêncio daquilo que é escrito.
Ainda que incompleto e falho, é parte da gente. Uma parte que não sabe se explicar por ser inexplicavelmente incapaz.
Palavras viram janelas cujas paisagens mudam com a interpretação de cada leitor. E, mesmo de sentido inexato, brotam nossa inexatidão.
Atrelada à palavra necessita-se de algo que a suplante. Precisa-se de que a alma do leitor caminhe com a nossa. Alma... mas o que há de exatidão numa alma? Voltamos ao princípio dos erros.
Apenas escrevemos. Meio sem saber aonde ir. Algo nos compele a prosseguir.
Talvez cheguemos a lugares onde meras palavras não conseguem nos levar.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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Conversas Perfeitas...

::.

Há conversas que nos inspiram
Nos tiram os nós, nos fazem pensar
Há conversas que nos transpiram
Nos tiram de nós, nos fazem sonhar
Há conversas que nos desnudam
Nos tiram os sóis, nos fazem calar
Há conversas que nos mudam
Nos tiram a sós, nos fazem repensar

Nem toda conversa se usa palavra
Nem toda palavra se faz entendida
Nem tudo que é dito converte-se em ouro
Nem todo não-dito não é preenchido

Há conversas que rimam-se às nossas
Há conversas que trazem sentido
Há conversas que enchem-nos os olhos
Há conversas sem mal-entendidos

Há conversas perfeitas
De contar pro amigo
De guardar escondido
Nos deixam despidos
Sentir borboletas
(rimas em sumiço!)
Ficamos perdidos
Sorrisos constantes
Conversas-amantes
Nos tiram o fôlego
Nos trazem alívio
Nos deixam bem bobos
E nos desafinam

Estas conversas são partes da gente
Perseguem-nos pelos caminhos
Nunca começam pois nunca terminam
Mesmo distantes nos aproximam

O resto é conversa

::.

Post-Scriptum:
Há conversas que são geradoras de panapanás...
Tão inteligentes, mas no ponto certo...
Tão humoradas, mas no tom certo...
E com um algo a mais, tão certo...

Mas há também a pele, fundamental.
Determinante, até.
Juntas, então... Use a imaginação.

Pensar, sorrir... viver.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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Surpreender

::.

Às vezes acordo debaixo da cama
Tem dias que saio pulando a janela
Nem sempre o sorvete que peço é doce
Ontem jantei na tampa da panela

Já tive cadela chamada Astolfo
Sempre torci para times rivais
Raramente respondo o que é pretendido
Nunca beijei de dois jeitos iguais

Tem vezes que canto em língua inventada
Dificilmente me atrai o banal
De vez em quando eu escrevo com a esquerda
Com toda a certeza me sinto normal

Frequentemente me chamam de estranho
Talvez por viver da maneira que eu quero
Sem dúvida alguma seguirei surpreendendo
Vai que eu encontre a quem tanto espero...!?

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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Amor de Respostas Invertidas

::.

Teus lábios que me acalmam dizem a quem amas
"Eu"

Em beijos me respondes se me sentes perto
"Sinto"

Um abraço cuja força grita o quanto queres
"Muito"

Este riso tão bonito me parece sonho
"Mas não"

Eu dizia que te amo e me respondias
"Amo mais... você"

Mas teus olhos falam coisas diferentes
Meus Deus o que será?
Os teus olhos olham tão indiferentes
Pode falar!
"Eu" "Sinto" "Muito" "Mas não" "Amo mais você"

(...)

Teus lábios diziam ter um só destino
"Eu"

Você dizia que sentia ser pra sempre
"Sinto"

Se exibia revelando nossa historia
"Muito"

Este riso tão bonito me parece sonho
"Mas não"

Eu dizia que te amo e me respondias
"Amo mais... você"

Mas teus olhos falam coisas diferentes
Meus Deus o que será?
Os teus olhos olham tão indiferentes
Pode falar!

"Eu" "Sinto" "Muito" "Mas não" "Amo mais você"

::.

Jamerson Belfort Nogueira

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::.

Vivendo e Escrevendo

.::

Meus passos não passam de textos
Meus dias escrevem palavras
Momentos discorrem ligeiros
Meus erros nem são ortográficos

Minha vida transcreve pretextos
Minha fala tem metalinguagens
Meus medos não têm entrelinhas
Meus atos me são caligráficos

Minha terra é parágrafo torto
Mas jovens não devem ter margens
Meus gritos são substantivos
Mas orações são subordinadas

Minha morte é um futuro imperfeito
Meus tempos se perdem em frases
Minha fé discursa em silêncio
Mas muito de mim é linguagem

Meus textos não passam de passos

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Passado Requentado



::.

Ela mal o encarava
Talvez devido ao frio

O beijo virado saudade
A lágrima continuada
O abraço um fenômeno raro
A pele deserta maltratada
O dorso adormece sozinho
A púbis desacostumada
O rosto esqueceu seu sorriso
A unha sem tinta aparada
O pêlo aguarda seu toque
A trança desembaraçada
O lábio tem nada de novo
A língua tem gosto de nada

Seu passado a visitou e confundiu seus sentimentos
Para um amor novo se mostrou despreparada
Imaginou-se ser capaz de sorrir por dois caminhos
Mas dividida é idêntico a ser nada

"O passado, às vezes, só é belo no passado"
"Requentado, um café pode amargar"
Frase velha que certeira feito regra fez sentido
E perdido o novo amor foi lamentar

(...)

Ela mal o encarava
Talvez devido ao frio
Mas como requentar
um coração vazio?

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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U Q T APTS?


::.

Esconda teus acordes na sacola, jardineiro
Poda sem poder tocar
Da varanda não se ouve tuas notas, jardineiro
Poda sem poder olhar
Finja habilidade nessas plantas, jardineiro
Poda sem poder falar
Serenata inútil, vã e tola, jardineiro
Poda sem poder cantar
Ignora a terra que nem cuidas, jardineiro
Poda sem poder mudar
Ela só quer alguém pras flores, jardineiro
Poda sem poder sonhar
Aquela janela sempre te ignora, jardineiro
Poda sem doer...?

Que flor sabes nascer daí embaixo, jardineiro?
"Só quero me aproximar"
Tua música escondida vale a pena, jardineiro?
"Ela pode condenar"
Volta a ser quem és, não nega, não és jardineiro!
"Devo me denunciar?"

É pior que plantar flores tortas, jardineiro.
...É o mesmo que te mudar

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Alguém Não Gosta De Mim







::.

Há uma criança na calçada
Ela senta
Calada
Descalça a sandália
Disfarça uma dor

Aos amigos que passam
sorrisos no rosto
Pro peito não passam
São risos sem fim
São rasos
Bem raros
São mero festim

Dentro da casa
Irmãos se abraçam
Debruçam-se em pais
Que não querem ser um

Há uma criança na calçada
Ela chora
Cansada
Procura respostas
Se sente culpada
Meu pai não me ama?
(Resposta não dada)

Ela sente que o frio
Não vem lá de fora
Agora é o peito
Que chora
Que ora
Sozinha no vento
Lamento
Tormento
"Há alguém que lá dentro
Não gosta de mim"

Há uma criança na calçada
Não pode entrar
Mas ouve de fora
O adeus de um pai
Que não quer mais ficar

Que atravessa o portão
Apenas sai
Que nem olha a criança
Andando vai
Que se afasta pra longe
Lágrima cai
Que Deus te abençoe.
Adeus, meu pai.

(...)

[Nota do autor:]

Meus pais se separaram quando eu tinha 13 anos.
Minha irmã fazia 15 anos de idade.

O amor não é um sentimento.
É uma escolha. Uma atitude.
Nem sempre tão fácil.
Nem sempre a que escolhemos.
O amor exige liberdade.
Às vezes, renúncia.
Nem sempre o recebemos,
mas aprendemos que sempre vale a pena o dar.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Outra Cidade

::.
Deitada, mas meus pensamentos mal tocam o travesseiro.
Como se eu mesma não aqui estivesse. Se ao menos não estivesse...
Escondo minhas mãos do frio.
Nenhuma roupa aquece o bastante.
Se ao menos nem a tivesse... As luzes desta cidade não me atraem mais que os olhares.
Poucos aos meus. Não me trazem. Não são os teus. Pouco me valem.
Um pensamento antigo, desses que me coram, decora meu rosto, deixando nele um traço molhado de sal.
Nem ao menos me entristecem...
Tu me rodeias com o braço que me aquece.
Meu riso te encontra e se encosta ao teu.
E dança no teu.
Dois grãos de ousadia no vento.
Mas feito o vento frio que encontra folha seca e a leva, meus olhos encontram a cidade, vazia sem ti.
Revelo minhas mãos, em vão, são julietas sem balcão.
Por que não cortas o frio e te aproximas delas?
Estou pequena, com um sentimento que dá sombra a árvores.
Estou vestida, mas as nuvens não cobrem a lua para sempre.
Estou deitada, mas meus pensamentos mal tocam o travesseiro.
Eles apenas passeiam, sem pontas nas sapatilhas, na esperança de dançarem novamente ao som da tua voz.
.::

Triste Separação


::.

Meus pais se separam
Se param de amar
Comigo deparam
E param de andar

Separam sem pensar em mim

Nem sempre me ouvem
Defendem seus lados
Nem ouvem meus sonhos
Projetam isolados
Nem beijos se sentem
Desacostumados
Nem sempre se olham
Desejam-se errados
Nem tenho dez anos...

Não falam comigo
Com medo reparo
Declaro o conflito
E aflito me calo

Casaram pra pensar em mim
Seu altar floria sem fim
Seu ato feria seu sim
Seria pra sempre assim?

Meus pais se separam
Se param de amar
Disfarço e aprendo
Me ponho a pensar
Despeço o desprezo
Também sei errar
Desfaço a tristeza
E passo a andar

Caminho pra pensar em mim

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

.S.A.U.D.A.D.E.

::.

Enquanto viajamos no ponteiro da vida,
somos abençoados com algumas ocasiões especiais,
quando nosso caminho cruza o de outro

...alma gêmea...

Aquela que, mesmo no primeiro olhar,
somos atraídos como se tivéssemos conhecido um ao outro desde sempre
No entanto, o nosso tempo juntos tende a ser breve

Na verdade,
pode nos ser concedido apenas um rápido olhar,
um ver com breves olhos,
em talvez aproveitar a oportunidade para trocar um comentário
destes assim, de passagem

Ou, em dias de sorte,
é-nos dada a oportunidade de partilhar uma conversa curta

No entanto,
nesses breves e leves momentos,
mas muito especiais,
que estranhamente
compartilham emoções
muitas
profundas e fortes:

...o calor da aceitação total...

...a surpresa de compreensão imediata...

...e de ser e estar compreendido...

...a abertura suave de confiança e carinho...

...e a sensação natural de que o tempo parou

Ah, se eu pudesse colocar o tempo em espera um pouco mais

Se pudesse o tempo permanecer neste estado,
onde a única realidade que importa é que nada mais importa

Mas o tempo só pára por um breve instante,
e então ele se move

E mais uma vez o momento de nossas vidas separadas
rudemente puxa nossos caminhos separados

E, muito em breve, aqui estamos nós...
Sozinhos novamente
Sozinhos com nossas vidas ocupadas.
Sozinhos com os nossos conhecidos frequentes
Sozinhos com os nossos sonhos do que poderia ter sido feito e dito

No final do nosso dia,
mesmo no final de nossa vida,
o que devemos valorizar mais?
Será que vai ser o nosso habitual dia-a-dia?
Será a existência?
A ocupação que consumiu as nossas vidas?
a multidão em torno de nós que nunca realmente se importou?
Ou será que vamos valorizar aqueles alguns espíritos afins e os breves encontros que tivemos?

...vontade...

Lamentamos tê-las deixado escapar,
e desejo que um de nós
- talvez os dois -
pudesse voltar o relógio e gritar:

Você significa muito para mim...
Espere só mais um pouco...

::.

Véspera



::.

Este é o penúltimo texto que escrevo neste blog...
(Sim, ele está com os dias contados!)

::.

Não quero mais assumir um romance de sorrisos feito deputados que não me representam.
Muitas vezes uma boa companhia e tudo mais é apenas uma boa companhia e nada mais.
Boas conversas têm seu lugar de destaque, não necessariamente o coração.
Não posso deixar que meu desejo por um romance tome as rédeas de meus semáforos.
Sou metade, mas não inteiramente. Longe de mim me aproximar de fingimentos.
O que quero ainda não encontrei...
Não quero preencher os meus vazios, muito menos querer ser o herói de alguém.
Nada pior do que usar outros farrapos como muletas.
De quebrado não já basta eu?
É esquentar pés errados em pés que não se acertam.
Parei de fingir que o que sei ser apenas lanche é meu delicioso jantar.
Mentir pra si mesmo, vivendo comodamente de juros, mas sem se encontrar.
Não desejo tal selvageria por inocentes beijos fixos.
Não desejo ter placebos de estimação.
Nego-me fazer de minha miopia um escape para recostar meu rosto ouvindo um palpitar que me ama em vão.
Sim, não te quero, não.
Até com palavras tu dizes que me amas. Como é doce de ouvir, sou metade.
Mas me conheço muito bem.
Escolho estar sozinho, mas nunca a ponto de fingir ou magoar.
Assumo meu vício por querer acertar.
Permaneço metade, mas inteiro.
Abandono a estupidez de mentir pro espelho
...e o crime de manter vivo a quem me carrega incompleto no coração.


::.

Jamerson Belfort Nogueira
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Lado Errado da Sala


::.

A sala, outrora vazia, agora abriga sete almas ansiosas, dentre as quais não me destaco.
Fico aguardando meu nome ser chamado, registrando com os olhos os momentos que cavalgavam num leve tropear as minhas esperanças.

Não distante de mim, outra alma me olhou. Seria pretensão registrar este fato com estas palavras, mas nego-me o direito de mentir a meu respeito. É apenas um olhar furtivo, assim miúdo, mas é um olhar ao meu.

Nenhum dos outros seis percebia nossa conexão, tampouco meu desespero.
Enquanto espero meu nome ser falado, divido a paciência com a incerteza dos olhares vizinhos. Mas o olhar dela, farol intermitente, acelera o meu pulsar, todos eles, mas nunca o meu ponteiro.

"Seria apenas minha imaginação?"

Que todos os entediantes momentos de espera cheguem aos meus dias futuros nesta doce dúvida...!

Aos poucos, outras faces se apresentam. Novas almas ocupam os mesmos assentos. Mas aquele farol permanece... e misterioso... e repetidamente meu.
Belo ser em tão boas medidas, que ignoro a atmosfera me furtada.
Mas o nome dela, que tanto quis conhecer, materializou-se. Um rápido cruzar a sala e pronto: não mais a vejo.

Sinto agora roubado cada um de meus pensamentos. De procurar conexões, me perdi e não venci. Meu relógio segue, ao contrário de mim. Sou o mesmo eu e outras almas. Um pouco mais confuso e sem faróis ladrões de ar.

"Sala de espera da felicidade". Talvez eu esteja no lado errado.
Agora tanto faz se ouço ou não o meu nome ser chamado.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Pós-Scriptum:

A vida é curta, vazia e sem sentido.
Cabe a nós dar-lhe algum significado e enchê-la com coisas de que gostamos.
Aproveite as oportunidades e as pessoas, pois elas se vão.
Há outra vida de esperança e felicidade do outro lado da sala'?
Não sabemos... Tanto faz...
Faça com que esta seja a festa que nos resta.

::.

Amor dividido pelo inteiro


::.

}
Recostado em teu peito, ouvi outra vez teu coração.
Mas aquele costumeiro 'tum-tum' mostrou-se diferente.
Um dos 'tuns' pareceu não ser pra mim.
{

Como pode se sentir
em um mesmo respirar
dois movimentos tão diferentes?
A quem pertence teu inspirar e a quem teu suspirar?

O tempo inteiro
você só se deu pela metade

Como pode se ouvir
em um mesmo bater de coração
dois sons tão diferentes?
Como posso dormir com o barulho ao meu lado?

O tempo inteiro
você só se deu pela metade

Como pode se aquecer
em um mesmo abraçar
dois braços tão diferentes?
Seu esquerdo nem me dá o direito de protestar

O tempo inteiro
você só se deu pela metade

Teu meio-respirar
Teu meio-palpitar
Teu meio-abraçar

Agora são meus meios de te esquecer por completo

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Mulheres...

::.

Fases, todas capazes
Turbilhões incoerentes
Súbitas lágrimas deslocadas
Demoradas escolhas
Fúrias desvairadas
Mudanças climáticas
Apaixonadas

Luas, ciclos, nuas
Lindas desmaqueadas
Perigosos encantos noturnos
Marés provocadas
Calores inconstantes
Risos em quarto-crescentes
Entronizadas

Lados, dados jogados
Pétalas frágeis
Sempre garras afiadas
Guerreiras notáveis
Armas perfumadas
Olhares viciantes
Indecifradas

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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Coração Triste

::.

Coração triste é um fruto caído pelo seu próprio peso.
Às vezes tudo o que quer é ser coberto por alguma folha que o vento vagueia.
Não, sem lamas. Não mais.
Não serve pra consumo. Mas se consome.
Apenas não serve.
Sem lama. Mas lamenta.
Venta, mas a folha nunca sai.

Coração triste de alguém caído pelo peso em sua consciência.
Às vezes tudo o que quer é ser descoberto. Pensamento que vagueia...
Não reclama. Não mais.
Não serve de consolo. Mas o que consola?
Apenas não serve.
Só ama. Mais aumenta.
Tenta, mas a coisa nunca sai.

::.

Jamerson Belfort Nogueira

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::.

Pós-Scriptum:

Vou transcrever um trecho de certa boa música:

"...Não há de ser nada, pois sei que a madrugada acaba, quando a lua se põe
A estrela que eu escolhi não cumpriu com o que eu pedi e hoje não a encontrei
Pois caiu no mar, e se apagou. Se souber nadar, faça-me o favor...
O milagre que esperei nunca me aconteceu.
Quem sabe só você pra trazer o que já é meu?

Brilha onde estiver
Faz da lágrima o sangue que nos deixa de pé"

::.

Teus Vários Lábios (+18)

::.

Rosto num arrasto arranha
- dorso!
Paladar teus vários lábios
- todos!
Dentes que desbravam peles
- mordo!
Ar colhido de tua nuca
- roubo!
Faro desbravando coxas
- lobo!
Frio manuseia ventre
- sopro!
Ritmo multi-transpira
- louco!
Teu ponto que exclama ação
- fogo!
Bico umedece doce
- solto!
Mas que sabe ela de Magritte?
- pouco.
Peço que ela se retire
- rouco.
Outra noite, outra moça
- bobo...

::.

Jamerson Belfort Nogueira

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::.

Pós-Scriptum:
Tudo começou com a pergunta: Como seria um texto erótico meu?
Sabia que não seria vulgar, mas teria um pouco de humor negro... (sabe-se lá porquê).
O resultado, talvez tão medroso e baixo como a parte 'teus vários lábios', foi esse.
A mediocridade de um homem bobo que não percebe que em uma mulher
tão importante quanto o cérebro é seu coração.
Isso não ficou bem claro no texto. Não sou Assis. Algum dia eu acerto.


::.

Sendo eu mesmo...


::.

Errando e acertando, mas sendo eu mesmo
Beijos meus passos marcados no chão
Não acho que perco quando eu me acho
Meus risos decidem minha direção

Nunca me empato com perdas ou ganhos
Sou fruto de escolhas colhido ao plantar
Escolho andar por quem sou de verdade
O eu a quem quero irei encontrar

(...)

Não te escolho no meu jogo, vida vazia
Meu caminho eu mesmo faço
Não me encolho no teu fogo, vida vadia
Meu carinho eu mesmo faço

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Sonhos e Destinos Extraviados

::.

}
Há quem as regue. Há quem as borde.
Flores. Há quem as ignore.
{

Alguns sonhos em comum só podem ser realizados em lugares diferentes...
Alguns destinos em comum só podem ser percorridos por caminhos distantes...
Abandonaria-se então o sonho?
Mudaria-se então o destino?

...algumas flores se bordam por si só...

O artista se vai, mas o bordado permanece.

Talvez exista um lugar para os sonhos e destinos extraviados...
Talvez lá se encontrem...
Talvez se reconheçam...
Talvez se entrelacem...
Sonhos e destinos são apenas o começo de novos começos.
Talvez num desses começos se lembrem que querem ser sonho e destino comum.

Talvez não...
Mas bastaria e compensaria apenas lembrar o antigo bordado bonito de um dia feliz.

...algumas flores se regam por si só...

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Obrigado pelas Lágrimas






::.

Tu me deste
Tu tiraste de mim
Teu nome bendito seja

Graças te dou pela separação de meus pais
Pelas lágrimas de minha mãe
Pela morte de minha sobrinha
Pela minha cadela que não voltou

Graças te dou por eu nunca te ver
Por eu nunca te tocar
Por eu nunca te ouvir
Por eu nunca te sentir
Pelo diálogo que nunca tivemos

Graças te dou pelos genocídios
Pelas chagas
Pelos vírus
Por não evitar a mão de Hitler
pelos estupros
pelas tissunames
Pelo bebê não resgatado no incêndio

Graças te dou por tudo aquilo que ainda não agradeci
Graças te dou por tudo aquilo que ainda não compreendi

Tu és o oleiro
eu apenas o barro
Tu plantas rosas e cravos
Eu continuo jarro
Se me culpo pelas minhas vontades
fico indefeso sob as tuas

Fazes de mim o que te agrada
ainda que não a mim

Te agradeço por cada uma de minhas lágrimas.

Tu me deste
Tu tiraste de mim
Teu nome bendito sempre seja

::.
Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)
::.

Rosa despedaçada


::.

A desejo
Há dez anos
Ah, destino triste

Me encanto com ela
Eu em canto, sem ela
Ela longe de mim
E lá longe de mim a vi

Qual cor quer ela?
qual querê-la?
Ela ama a amarela
Amar a ela eu quero
Que cor dar a ela?
Que corda a prende?
Que cor eu aprendo?
Acordar de repente sem ela

V de verdade
Nem vê de verdade
Sigo todo dia
Se gosto do dia
A seguir sem ela

Por um triste desejo
Por um triz te desejo
Sem coração, vazia
Sem cor, ação vazia

Tira a semente
Sem mentira
Ela quer amarelo sem mim

Rosa de cheiro
Cheirosa
Lhe dei com ardor
Lidei com a dor
Ela me despreza
Ela me fez presa
Mal me quer com ela
Bem-me-quer sem ela
Rosa despedaço
Rosa desperdício
Dez pedaços de rosa no chão

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

::.

A Hora de Minha Morte


::.

Na hora da morte eu quero ser forte.
E se tiver sorte prefiro nem ser.
Quero sentir os meus medos surgindo.
Saborear rindo meu entristecer.
Agora é que a vida será desvelada.
Desmitificada. Devir e não-ser.
Desejo não ver meus amigos fingindo.
Embora estar indo, vou permanecer.

Meu ir também é viver.
O tempo a seu tempo degusta migalhas de mim.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

::.

Breve Rascunho Breve


::.

Mente feliz.
Felizmente
não pra mim.

::.

P.S.:
Sempre gostei de poesia. Espero que algum dia eu saiba fazer uma.
Poesia é forma de expressão. Porém muitas vezes aquilo que é escrito não condiz com o que realmente penso, sinto ou acredito.
Confesso que algumas palavras que uso neste blog são usadas para causar alguma impressão no leitor... ou então são forçadas para que rimem com o parágrafo anterior.
Sinceramente não aprecio isso. Muitas vezes o carinho que sinto não possui uma paroxítona adequada a ela. Por isso não aprecio "poesia-arquitetura", maquinada, trabalhada para exprimir uma lágrima ou um sorriso.
Gosto de sentir o verdadeiro gosto das coisas.
Me agradem elas ou não, mas que sejam sinceras.
Não me cazuzo a ponto de querer um amor inventado, com rimas pra mpb (que têm seu lugar certo), ou ainda, com palavras regradas, com quantidade exata de parágrafos, em padrão-literário. Sentimentos reais não se expressam assim.
Se é bela, corro o risco de que a palavra possa estar iludindo, não transmitindo o sentimento exato. Evito-a.
Se é feia, talvez uma verdade seja ignorada pelo leitor (e infelizmente acabo a ignorando no texto).
Meus sentimentos não se expressam assim. Quero em fatos reais o meu melhor sorriso, decepção, carinho, inquietação, curiosidade, razão, audácia, paixão, amor e tesão. As regras da Academia de Letras que se danem...
Gosto das coisas como elas realmente são. Pessoas são coisas sérias. Sentimentos são coisas sérias. Poesia também é.
Não quero um amor digitado, nem assim quero a indiferença. Não posso dizer que é verdade a palavra pré-trabalhada, planejada, de rima procurada, floreada, enganada, transgredida.
Gosto de palavras feito braile, assim, que me toquem.
E só sei fazer isso de outras formas...
me recuso a fazê-lo em poesia com regras de alvenaria, de tijolos posicionados sempre da mesma forma. Quando nasce em palavras, meu carinho nem pensa nisso, pois sabe o jeito certo.
Poesias construídas, mesmo desleiais, até que são bonitas pra se guardar, feito um broche.
Apesar de não serem instrumentos da verdade, são pinturas bem bonitas. Ficam bem na parede.
Sempre as adimirei. Sempre gostei de poesia.
Espero que algum dia eu saiba fazer uma.


::.

Jamerson Belfort Nogueira
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jamys2006@gmail.com

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Primos Distantes (+18)

::.

Números mágicos existem.
Mais que primos, são perfeitos entre si.
Se completam, apesar de serem únicos,
num mistério mágico ímpar.
A outros se acomodam,
mas geram números comuns,
cardinais tão ordinários...
Mas há os números mágicos, como que perfeitos.
Se afastam, vivem paralelos, mas não crêem no infinito.
Números mágicos persistem.
Se são pontos, a menor distância entre eles
transpassa labirintos racionais e probabilísticos.
Se são retas, tortuam Euclides em meridianos que não se tocam.
São números obstinados, diferenciados. Assim, únicos.
Negam posses, mas pertencem um ao outro.
Tais números não andam juntos.
Por vezes mal se falam.
Geralmente números comuns os intercalam.
Números primos às vezes vivem separados.
1,dois, três,4, cinco, 6, sete...
Algum número se intromete.
mas são necessários para a contagem ser perfeita.
Números mágicos se encaixam.
Têm tamanho e medida certa. Se incendeiam.
Conhecem o ponto certo. Mas rodeiam...
Números acalorados, proibidos,
Juntos, pervertidos.
Números com química. Números atômicos.
São raros, difíceis de os identificar.
Resultados iguais em todos os sentidos.
Perfeitos em todas as posições.
Diferentes e profanos. Mistérios levianos.
Divisíveis só por eles e por um.
Um 'um' que é sempre mais um.
Orgulham-se de serem números inteiros.
Não podia ser diferente.
Quando divididos não sobram restos.
Nada os divide inteiramente.

::.

(Que texto bobo. Algum dia saberei fazer uma poesia erótica que preste?)
Com o perdão do trocadilho safado, "Números mágicos são inúmeros".
São raros, mas não são únicos. Você vai achar alguns em seu caminho.
Os números primos mais interessantes são justamente os dois primeiros.
O "2" por ser o único número par e o "3" por ser o primeiro número ímpar.
Números primos geralmente ficam distantes um dos outros (é sempre assim...)
Mas estes dois moram pertinho.
O "2" é o estranho na lista, incomum, sua presença surpreendente. Um mistério...
O "3" é ímpar, o primeiro, esforçado, dedicado. Um talento...
Juntos são complicadamente simples. Algo que não sei desvendar.
Gosto deles. Ok, revelo: Eu sou o 2. Ela, o 3.
Talvez por estarem perto (e por causa de seus temperamentos),
se faíscam e se fascinam. Caminho imprevisível.
Eles n... Ops! Era pra ser apenas um breve comentário.

::.

Me chamas









::.

Somente Tu falas
mas preferes o silêncio
Devoro a tua Palavra
mas não saboreio o teu abraço
Tua santa lei habita em minha cama
junto aos maus desejos dos meu dias
Durmo no chão, com medo

Em meu coração te louvo
Mas meus atos te entristecem
Meu eterno recair
Teu eterno perdoar

Corto aos poucos o galho onde me assento
O que sentes?
Não sou ramo como os teus

Eis que virão as chamas...
Um dia te verei face a face
E terei medo

Pelos erros de décadas
pagarei décadas sem fim

O que sentirás por mim enquanto te olho?
O que sentirei por ti enquanto me olhas?

Nesse breve instante em que te verei
Ouvirias minha pergunta?

Por que me deste teu silêncio?

Mas em silêncio renuncio minha coroa
Aceitarei tuas primeiras palavras a mim
Ainda que de condenação

Por tanto tempo quis te ouvir
Nesse triste começo dirás meu fim

Como pôdes me amar tão muito?
Como pude Te amar tão pouco?

Disseram que Teu amor era eterno...
Irás ainda me amar enquanto minha alma queima no inferno?

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

FIM DO BLOG - Último Texto


::.

Eu tenho um livro aberto no escuro.
Uma pequena luz o ilumina, permitindo a leitura.
Nele é possível saber um pouco daquilo que penso
e daquilo que penso saber.
E me foi um trabalhão: Não sou bom em me fazer entendido.
O que me motivou a publicar foi imaginar que os textos
ajudariam almas pesadas como a minha a encontrar algum conforto,
ainda que apenas no fato de encontrar alguém com sentimentos parecidos.
Falei de coisas que não entendo bem, situações que atravessei despreparado.
Os assuntos são variados. Tentei simplificá-los.
Mas é tempo de me expressar de outra forma. De um jeito mais eficaz.
Foi engraçado... Quando escrevia sobre minha tristeza,
fui parabenizado pelo bom texto sobre minha tristeza. rs
(Essa interessante ironia me fazia um bem danado!)
Mas são textos ineficazes. Não cumpriram o meu "desejo maior".
Mas por serem "belos", não os apagarei.
O blog continuará no ar (por ser gratuito...)
Depois de tantos calos e tropeços, um homem forte se formou.
Estive atento à todas as lições da vida, com o mesmo interesse e dedicação
que tenho pela astronomia, pelos idiomas, pelas leituras, pela maneira de fazer sorrir e pela forma de abraçar.
Não será mais neste blog que alguém saberá o que este novo homem pensa
e nem o que ele pensa que sabe.
A pequena luz que acendi aqui permanecerá acesa, mas sem minha presença.

"Minha vida segue se escrevendo"
"O artista se vai, mas o bordado permanece"
"Deixo sobre a mesa a arte que terminei com uma lágrima"
"Meus textos não passam de passos"
"Às vezes tudo o que quer é ser descoberto"
"Meu ir também é viver"
"Vez por outra ainda vivo outra vez"
"Não me encolho no teu fogo, vida vadia"
"Raios de sol me despertaram em tempo certo"
"Eu continuo jarro"
"Eu ainda me seria?"
"Que cor eu aprendo?"
"Caminho pra pensar em mim"
"O tempo passou. Mas algo mudou"
"Corto aos poucos o galho onde me assento"
"Sem dúvida alguma seguirei surpreendendo"
"Nem toda conversa se usa palavra"
"Talvez cheguemos a lugares onde meras palavras não conseguem nos levar"
"Por que não agora?"
"Livro se fecha..."

Eu tive um livro aberto no escuro.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Namoro Tolo


::.

Alguns hojes me acordam de ontens mal dormidos.
Agora quero me espreguiçar sem ti.
Travesseiros sempre secam frente ao tempo.
Talvez minha chegada seja mesmo o teu partir.
Lágrimas eram suor de esperanças cegas.
Mas certa forma de vencer é desistir.
Pijama velho lavado pra dias novos.
Mas há outra que prefere o meu despir.
Teu descaso foi colírio de olhos tolos.
Hoje me quero em asas com minha paz fugir.
Pior que o ódio mudo é a linda indiferença.
Melhor que fuga e crença é evitar mentir.
Raios de sol me despertaram em tempo certo.
Ser mais meu mesmo sem ser dela e sorrir.
Alguns hojes me acordam de ontens mal dormidos.
Agora quero me espreguiçar longe de ti.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Números Apaixonados


::.

Livro se abre...
No horizonte vejo as luzes se acenderem
Vejo acesa minha chance de te ver
Mas só vejo tua partida
Somos números distantes
És impar e eu sou par
A par de um caso ímpar
Agora estás na página ao lado
Eu na outra a te observar
Mas estás à margem esquerda
E eu sem direito de estar
Mesmo livro
Tua história faz a minha ter sentido
Numeração distante...
Sentido oposto num livro bem aberto à luz do dia
Meu número tem saudade do seu

Livro se fecha...
No horizonte vejo as luzes se apagarem
Vejo acender minha chance de te ver
Por mais que deteste este teste
É só no fechar do livro que nos encontramos
Números distantes que agora estão colados
No escuro te beijo
Mas não te vejo
O que teus olhos sentem por mim?
Temos tintas firmes
Não se deixam despregar
Ignoras nosso encontro?
É meu tipo de impressão?
Quero teu número borrado sobre o meu

Livro guardado na estante...
Estamos juntos
Mas distantes
Esperando pelo instante
De alguém nos separar
De que nos adianta
Numerar as páginas de uma linda história
Se escondemos do leitor a nossa?

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Amigos Que Não Se Falam








::.

Por não se pode mais ouvir a voz de Deus?
Por que apenas uns poucos privilegiados?
Por que o silêncio é tão importante para Ele?

Bem...
De criança aprendi:
"Falamos com Deus através da Oração e
Ele responde através de Sua Palavra, a Bíblia."
Desde este dia, meu relacionamento com Ele ficou totalmente deformado.

Esta é minha definição de silêncio: "ausência de som".
Pra alguns, esta definição é diferente quando se trata de Deus.
Afinal, Deus "fala" através de uma ação, de uma idéia, de algo material...
Numa capa de CD, aprendi que nossas atitudes falam mais do que nossas palavras.
No evangelho, aprendi que nossa melhor pregação é nosso estilo de vida.
Na arte, aprendi que uma imagem vale mais do que mil palavras.
No cume de uma montanha, aprendi que o silêncio vale ouro.
Com uma ex-namorada, aprendi que às vezes palavras não bastam...
Vejo verdade nestas palavras. De coração.
Mas pra mim é um grande desafio viver estas verdades.
Talvez porque eu prefira o mais fácil... em vez do mais sensato.
Sou um insensato! Talvez este seja o meu problema.
Esta é minha primeira resposta: "Sou um insensato".

Porém isto me leva a outro problema.
Se Deus gosta de dialogar sem o uso de palavras,
por que Ele deseja que usemos as palavras?
Ele também recebe nossas orações em silêncio,
por isso, fiz através de atitudes as minhas orações.
Mas sei que Ele deseja ouvir minha voz.
Qual pai não desejaria?
Mas por que não posso desejar ouvir a dele?
Que filho não desejaria isso?

Algumas pessoas simplesmente se sentem à vontade com o Silêncio de Deus.

Eu não.

Se este é um presente que receberei apenas após a minha morte,
permaneço triste.
O melhor nesta vida só acontecerá quando esta vida se acabar?
Para mim, a FALA não é dispensável.
Dentre muitos deuses mudos, o meu é o único que fala.
E ainda assim prefere o silêncio.
Sua voz criou a luz e seu silêncio me apaga aos poucos,
só porque quero os verbos do Verbo.

Alguém me diria:
"Se o ouvisses, não suportarias em pé."
Eu concordo.
Conheço um velho professor, mestre e doutor,
que prefere não ensinar crianças,
pois elas não o entenderiam, nem o aguentariam...
Para mim, este é um mau professor.
Sei que Deus pode ser abraçado, afinal, já foi até cuspido.

Por que meu melhor amigo simplesmente prefere não falar comigo?

::.

Jamerson Belfort Nogueira

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::.

Por que não agora?








::.

Tive a felicidade de conhecer a Jesus Cristo ainda criança.
Aos poucos percebi que caminhava por caminhar.
Conheci quem sou e no que sou capaz.
Vez por outra, recorria-me ao Caminho,
em ciclos erros-confissões sem fim.

Eu sou um humano mau em meio a maus humanos:
a completa transformação em Nova Criatura é uma esperança após a morte,
demorada demais, para um céu longínquo.
Até lá, sou passivo a quedas e devaneios.
Todos os meu dias.

Muitos, como eu, se despedaçam pelo caminho.
Admiro e observo apaixonadamente os que prosseguem.
Quanta fé!
Mas eu sou um inquieto, um curioso, um eterno questionador do que acredito.
Por que me tornei assim?
Teria o bom Criador criado este menino mal-criado?

Hoje desprezo o que ~aprendi~ sobre Ele.
O conheço, mas não o toco, não o ouço, não o sinto.
A Preciosidade do abraço d’Ele só terei quando minha vida chegar ao fim,
caso inocentado em Seu julgamento.
Felicidade celestial após sofrimentos terrenos.
Isso em nada me conforta hoje, neste corpo, que sangra, que chora, que congela.
De que adianta apenas O ver quando estiver num céu sem lágrimas, dor ou dúvidas?
De que adianta O abraçar apenas quando meus medos já tiverem desaparecido?

Não me contento em ouvi-lo apenas lendo seu livro.
Isto não me agrada em nada.
Quero que Ele me toque.
Só assim serei curado deste mal, como São Tomé, que mesmo sem fé recebeu o que tinha pedido.
Não quero acreditar que seja tudo verdade – disso eu já bem sei.
Não quero barganhar uma teofania,
não quero fazer birra como criança,
não quero julgar-me merecedor de Seu carinho.

Quero apenas Ele.

Por que não agora?

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Flores no Jardim






::.

Nasce e MORRE uma flor no Jardim do Éden

Eu não te vi construindo um jardim
Por que dizes que nasci?
Eu não te vi proibindo no jardim
Por dizes que comi?
Eu não te vi expulsando do jardim
Por que dizes que morri?

Vez por outra ainda morro outra vez...

Morre e NASCE uma flor no Jardim das Oliveiras

Eu não te vi exortando no jardim
Por que dizes que morri?
Eu não te vi alimentando no jardim
Por que dizes que comi?
Eu não te vi ressurgindo no jardim
Por que dizes que nasci?

Vez por outra ainda vivo outra vez...

Por que me julgas importante?
O que tu olhas quando a chuva cai em mim?
Vivo num murchar e crescer constante
Quem de nós dois decidirá meu fim?

Tua vida em minha morte me traz vida
Venha forte feito corte feito em mim

Quantas vezes tuas lágrimas secaram
enquanto regas tuas flores no jardim?

Em amor tu recolhes minhas pétalas
E em pétalas eu escolho o teu amor

Mas vez por outra ainda morro outra vez...

Perdoa-me.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Tetraplégica Patrícia

::.

Enquanto todo mundo brincava, Patrícia parada ficava.
Patrícia veio ao mundo, mas não viveu.

Meninos tinham corridas eternas. Patrícia nem sentia suas pernas.
Meninas pernoitavam conversando. Patrícia se comunicava piscando.
Todo dia, ciranda e pega-pega. Patrícia não falava, era cega.

Reconhecia vozes, ouvia histórias.
Soube de crianças que podiam brincar.
Patrícia sonhava acordada.
Que vida parada!
Chorava calada... Mas braços inertes não podem abraçar.

Patrícia não se conhece, nunca se viu.
Patrícia não se diverte, nunca sorriu.
Suas lágrimas corriam por ela.
::.
Certa noite a menina acordou bem diferente.
Seu peito batia forte, mil coisas à mente.
Não sei explicar, foi surpreendente.
Patrícia se foi de repente.

::.
O tempo passou. Mas algo mudou.
::.

Foi nesse momento que descobri que anjo também chora.
"De que vale uma vida nunca vivida?
O que poderia ser feito agora?"
Mas Deus deu a Patrícia um grande presente:
Cem anos mais tarde nasceu novamente.

Obrigado, Senhor. Minha vida te adora!
::.
Desta vez a menina nasceu bem diferente.
Seu corpo era forte, mil vezes potente.
Não sei explicar, foi surpreendente.
Simone nasceu sorridente.

::.
O tempo passou. Mas nada mudou.
::.

Enquanto todo mundo brincava, Simone parada ficava.
Simone veio ao mundo, novamente, mas não viveu.

Meninos brincavam no barco à vela. Simone ficava assistindo novela.
Meninas pulavam, giravam em ciranda. Simone passava horas na varanda.
A menina poderia fazer de tudo, mas desperdiçava o seu mundo.

Não ia ao cinema, fugia da praia. Ela vestia sempre a mesma saia.
Simone via o tempo passar. Esperava que algo pudesse chegar.
Que vida parada!
Chorava calada... Mas vidas inertes não sabem andar.

Simone não se conhece, nunca se viu.
Simone não se diverte, nunca sorriu.

Enquanto todo mundo brincava, Simone parada ficava.
Simone veio ao mundo, novamente, mas não viveu.
Suas lágrimas morriam com ela
::.
Foi nesse momento que descobri que anjo também aprende.
"De que vale uma vida nunca vivida?
O que poderia ser feito agora?"
Mas Deus deu a Simone outro grande presente:
Simone dormiria na terra eternamente

Junto a todos os que aqui já moraram.
Alguns que viveram. Alguns que apenas passaram.
Alguns que tiveram a alma pequena. Alguns que fizeram valer a pena.
Alguns que lamentaram seu grande sofrer. Alguns que fizeram acontecer.
Alguns que fizeram sua vida morrer. Alguns que fizeram sua vida viver.

Que me inspiram a saborear cada um de meus breves momentos.
Que me obrigam a merecer ter nascido.
Que me fazem escrever isso agora.

Obrigado, Senhor.
Minha vida te adora!

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

::.

Solidão Desenhada








::.

Meu desenho começa com um lago.
O lápis teima em traçar o que estou sentindo.
Então logo surge o mar.

Desenho um porto despedindo-se de mais um navio.
Eu rabisco o adeus de quem vê seu marido sair para mais um dia de pesca.
Um garoto atirando pedras no mesmo lago em que um dia esteve à beira com seu grande amor.
Agora, sentado, o menino também desenha coisas que vê de belo...
para esquecer a dor, enquanto o lago se enche de pedras.

Abro minha caixa de lápis de cor e escolho a tonalidade certa para cada cenário.
Deixo as pedras sem pintar.
Logo o céu azul-claro fica escuro, bem marinho, devido às horas.
Apagando pontos no céu surgiram estrelas... mas a lua não quis aparecer.

Era uma noite diferente.

Abrindo a janela, a esposa vê ao longe seu querido com cavalos-marinhos junto à pesca.
Cada passo dele para ela era uma gota a menos de saudade.
O porto ao navio não mais viu...
mas o marinheiro sorriu ao pisar a areia...
e pôde compartilhar a noite com seu amor de infância.

O que aconteceu ao desenho do garoto? Ela o viu. Gostou de cada cor.
E lembrou o amor antigo.

Enquanto eles conversavam como antes, sentados à beira,
um abraço aconteceu, novamente...
enquanto seu lago se desfazia das pedras.

Acaba a tinta de meu desenho, e o acabo.
Deixo sobre a mesa a arte que terminei com uma lágrima...
Desenhei o que sei de belo...
para esquecer a dor, na esperança que ela o veja...

Mas por mais um dia o meu lago se enche de pedras.

::.

(Obs.: Escrevi este texto num pedaço de papel que guardo até hoje.
Agosto de 1999, em Brasília/DF.
Um texto iniciante. Romântico. Patético. Sincero.

Pensei em colocar o papel fora,
mas resolvi dar um outro destino a ele.

"Há um coração quente nesta noite fria.
Agora só me falta encontrar outro."

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

::.

Eu não vou morar no céu

::.

Eu não vou morar no céu.

Quando eu chegar ao céu não terei mais maldade
Nenhuma saudade para lacrimejar
Nem aplausos a quem vejo me ganhar
Virerei sem medos...

Quando eu chegar ao céu não verei filmes de terror
Nenhum suor vitorioso para transpirar
Nem minutos de preguiça ao acordar
Viverei sem sonhos...

Quando eu chegar ao céu não terei mais dilemas
Nenhum cinema e frio na barriga ao beijar
Nem pensamento erótico ao deitar
Viverei sem manias...

Quando eu chegar ao céu não terei tanta ousadia
Nenhuma ironia para me deliciar
Nem países exóticos para aventurar
Viverei sem desafios...

Mas quem sou eu sem meus medos, sonhos, manias e desafios?
Quem sou eu sem os defeitos deste mundo?
O que me restaria?
Eu ainda me seria?

Que tipo de eu tão diferente de mim habitará no céu?
Quem me reconheceria?

Não
Aquele não será eu
Eu não vou morar no céu

Que meu futuro-eu desconsidere estas palavras...!

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

::.

Frio, vazio e opaco.








::.

Algumas pessoas nascem sem as pernas. Muitas, sem o coração.
Os hospitais fedem a gente.
Manicômios, asilos, lugares para débeis não-aceitos entre os débeis comuns.

Adultos que cagam em fraldas.
Meninos que estupram mulheres.
Governos que explodem bebês.
Seringas que carregam vermes.
Fetos que não viram fotos.
Jogos que amputam as mentes.
Bebidas que castigam esposas.
Indiferenças que partilham a dor.

Assim é meu corpo neste mundo.
Assim é este mundo que me traz torpor.
Que cheiro imundo exalamos às galáxias!
Moramos entre grades, com medo daqueles ser que não temem ser humano.

Não me chamo mais Mim Mesmo.
Este pulso cobre veias que escondem o que sou.
Células fadadas defraudadas.
Eu rumo o cemitério comunitário.

O planeta plana em agonia. Frio, vazio e opaco.

Viram o sangue nas vaginas não mais virgens das meninas de oito anos?
Viram os destroços - carnes e ossos - putrificados no asfalto?
O esquartejamento do casal?
Eu vi aquele vômito de sangue, escarrado, do rapaz decapitado.
Vi suicídios, terrores e temores.
Vi meu corpo em decomposição, cortejado por bactérias horripilantes.

Este é o mundo que me foi presenciado.
Não me avisaram dos humanos maus.
O Éden convertido em inferno.
Somos horripilantes bactérias desesperadas por um Salvador cuja noção de ‘breve’ supera dois milênios.
Meu corpo já não agüenta olhar adiante.
Não possuo pernas, nem coração.
Estou cansado.

Festejem, ó vós, poucos homens de fé, que residirão eternamente com Deus.
Meus saudosos cumprimentos.

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Todo dia ônibus lotado...



::.


Todo dia, meu velho ônibus azul lotado
Como bobo, sei de cor toda aquela paisagem
Tanta gente, a tão poucas reconheço
De passagem, observo o que fazem ao meu lado
Bom-dia, olhe-o-trôco, com-licença-meus-amigos
Mesmos rostos, mesma trivialidade
Raros passageiros, pertos e desconhecidos
Me ignoram, não me têm intimidade
Vários mundos, tanta coisa pra saber
Seguem mudos, textos não compartilhados
São ilhas, são mobílias a meu ver
Nem suspeitam, estão sendo analisados
Estamos juntos, atraídos pela gravidade
Estado grave, nos traímos separados
Bem ocupados, evitamos uns aos outros
De propósito, bem mal intencionados
Quando chegam, se misturam feito regra
Preço pago, se acomodam como podem
Pouco espaço, poupo, passo, louco fico
Luz vermelha, fique verde! Pneus, rodem!
Mais minutos, analiso os companheiros
Avisto amigos, minha minoria e trégua
Um sorriso, desses que me fecham os olhos
Trouxe alívio, mas me falta uma légua
Feito estalo, lembro da contagem regressiva
Minha descida, preciso a viagem aproveitar
Bela idéia, farei tudo o que agrada
Curto tempo, inesquecível vai ficar
::.
Inclino minha cabeça
reconhecendo tua sabedoria, Senhor
::.
Na verdade, este ônibus azul em que me amasso
Explico tarde, neste tempo que se encerra
São momentos, bons e maus, por quais eu passo
Metáfora boba, do meu azul planeta Terra

::.

Jamerson Belfort Nogueira
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::.

Crônica #1


::.


Crônica # 01 - "Fidelidade, Cinema e Demais Ilusões."

Tem certas novelas que conhecemos o final logo no primeiro episódio.
Mas nada no romance daqueles dois parecia andar por este caminho. Não, mesmo!
Eles ainda estavam empolgados com as novidades constantes, com os novos cenários, com as descobertas envoltas em sorrisos. Era mais parecido com um filme de ação, de aventura. Uma dose de comédia. Por vezes pornô...
Ok, muitas vezes bem pornô.
Mas jamais uma novela!
Ainda que fosse dividido em capítulos, eles encaravam, no máximo, como um seriado. Sempre era um “final” que continuava. Tipo os gibis da Marvel...
Era daqueles que quando terminam uma parte, nos deixam ansiosos para baixar o novo episódio no rapidshare. E olha que cada temporada era mais instigante que a outra. Os personagens cativavam e mantinham a trama em alto nível.
Nada clichê. Nada decorado. Nada nhenhenhém. Tudo bem vívido. Cada vez mais surpreendente... Aquele romance daria um belo romance. Uma espécie de autobioeroticografia.
Bom, mas aí veio a tal da Claudiane.
Não foi assim como quando uma atriz famosa faz uma aparição na cena. Não era lá um “participação especial”. Essa daí surgiu do nada, essa linda, no meio dos figurantes. Sei lá quem a deu uma fala completamente transeunte.
Cena externa: Casal principal anda pela calçada e passa por uma ruiva conversando com uma amiga.
Acho que a fala dela era um “...foi então que eu o encontrei ali no...”.
Sei lá.
Na verdade o nome dela nem sei se é Claudiane. Estou nivelando por baixo, me baseando pela feição da criatura. Ela tinha cara de Claudiane, nome de atendente de loja...
A aparição da moça na tela durou exatos 21 frames. Quase 1 segundo. Mas roubou completamente a cena.
Que diabos o diretor tinha em mente pra julgar essa parte como necessária? Não mereceria nem ir para os extras!
Só sei que chegando em casa, o mocinho viu a fita, encheu a testa de linhas horizontais e reviu a cena umas trocentas vezes.
Aquele segundo foi repetido por quase um minuto e lhe ferveu os pensamentos.
Era o fim do casal principal – disse eu na mesma hora.
Seu maior objetivo agora era encontrar aquela figurante fulgurante de andar atraente.
Tirou da calça uma bic e anotou num papel as pistas.
Vamos lá: vestido meio que amarelo. Batom meio que vermelho. Segurava uma casquinha de sorvete. Meio que baunilha.
Bom... só isso.
Levou o DVD para o computador, deu Print Screen e imprimiu aquela fração de segundo que lhe tomou por inteiro. Mas a merda do diretor nada sabia, nem a bruta da moça do cast. Sua busca se desvanecia a cada frustração...
Amanhã era dia de gravação e sua atenção estaria inegavelmente voltada para a misteriosa ruiva. Mas... revisando o script, percebeu que amanhã era justamente o dia daquela cena romântica... Ele teria que estar aos beijos, bem ardentes, numa rua bem movimentada.
E se ela ali figurasse novamente? Mas ele não poderia fugir. Seu contrato o impedia.
O seriado, apesar de já estar na quarta temporada, mantinha-se no auge do sucesso. Valeria a pena abrir mão por algo tão incerto?
“Silêncio no estúdio... ação!” Eita, lasqueira...
Não teve jeito, ele estava muito diferente. Vestia até gravata o pobre diabo. Se é que ele estava ali. Pelo menos não a região do cérebro responsável pela emoção. Não sei qual hemisfério do cérebro o dominava, mas parecia que a globalização estava ali também.
Ele olhou a namorada de jeito vago, com cara de quem despertou pelas 5h acordado por uma testemunha-de-Jeová na porta. Ali ele parecia um Ferdinando Gonzalez de novela mexicana. Com frases feitas em um rosto enjoativo.
Ela até que percebeu, mas, profissional, realizava eximiamente seu papel.
E eis que veio a cena do beijo na avenida. Os olhos dele percorriam todo o set de gravação.
Nada de ruiva. Nada de vestido amarelo. Tinha um gordinho tomando sorvete de baunilha.
Mas veio o beijo e tudo mudou.
Até hoje não sei a diferença entre beijo-técnico e beijo-pra-valer, mas aquele ali fugia qualquer adjetivação. Era o-beijo-deles. Era tipo o beijo do Homem-Aranha na Kirsten Dunst, mas sem estar de cabeça pra baixo. Confesso que queria ter uma micro-câmera ali pra aprender.
Naqueles 9 segundos, passou-lhe cenas dos episódios anteriores, num flashback bem editado. O áudio também estava impecável. Lembrou os momentos de ouro do relacionamento.
O figurino ficou a desejar, pois não o tinham.
Bom, no videozinho mental veio a tal cena da Claudiane com seu “...foi então que eu o encontrei ali no...”.
Ele abriu os olhos e findou bruscamente o aracnobeijo. Ali estava ela, a ruiva, na calçada, com casquinha e tudo.
1 segundo. Era tudo o que ele tinha para decidir o destino de seu personagem. Na verdade, de todos. Mesmo sendo filme, não tinha espaço para um final alternativo, pra escolher depois qual o melhor. Naquele nanosegundo nada lhe inspirava.
Nem a Marvel. Nem o Ferdinando Gonzalez. E o maldito gordinho já estava no terceiro sorvete!
Sabe lá Deus o que o fez titubear entre o-amor-de-sua-vida e uma-ruivinha-paraquedista.
Tá, ela tinha um belo par de seios, feito dois-pássaros-voando... mas vai que ela seja uma psicopata, ou feminista, ou assembleiana!?
O pássaro-na-mão tinha tantas qualidades... E foram quatro temporadas maravilhosas!
Foi então que se rendeu. Quando o diretor gritou “corta!”, a coisa ficou doida.
No outro lado da calçada, outra mulher, mulata, sorria para ele como que laçando um touro em Barretos.
Nossa, que pernas! Carambas, que pescoço! Putzgrila, que mulata!
Num movimento único, agarrou sua namorada inesperadamente e tascou-lhe novamente um beijo daqueles que a gente capricha no primeiro encontro.
O diretor não entendeu. O público ali não entendeu. A ruiva não entendeu. O gordinho já estava no quinto sorvete. A mulata não entendeu.
Na verdade, eu acho que nem ele entendeu o que estava fazendo. Mas o moleque fazia e fazia bem feito.
Refletindo em casa, acho que deu pra eu entender.
Esse mundo holywoodiano é cheio de belas atrizes. Se fosse pra escolher a melhor, pularia-se de galho em galho e nunca se convenceria. E essa infinita sequência de pulos magoaria a cada uma, como se o pulo fosse bem no calo delas. Não era isso o que ele queria. Ele queria uma pra fazê-la apenas feliz. Uma que o aguentasse em qualquer situação, em todos os frames, seja a temporada que for. E isso ele já tinha, bem ali nos seus braços.
Acho que foi isso que o fez agir daquela maneira.
Ou talvez não, já que uma semana depois ele foi visto numa varanda beijando uma moça meio fraca de aparência.
O pior é que tem filmes que também conhecemos o final logo no primeiro episódio.
Eu, que estou de fora, fico no lucro e nem me abalo. Estava querendo mesmo é ver os erros de gravação.

(...)

Final Alternativo

(...)
Refletindo em casa, acho que deu pra eu entender.
Esse mundo holywoodiano é cheio de belas atrizes. Se fosse pra escolher a melhor, pularia-se de galho em galho e nunca se convenceria. E essa infinita sequência de pulos magoaria a cada uma, como se o pulo fosse bem no calo delas. Não era isso o que ele queria. Ele queria uma pra fazê-la apenas feliz. Uma que o aguentasse em qualquer situação, em todos os frames, seja a temporada que for. E isso ele já tinha, bem ali nos seus braços.
Acho que foi isso que o fez agir daquela maneira.
E os quarenta e seis sentidos de sua namorada deviam ter percebido todo aquele roteiro.
Acho que foi isso que a fez o amar mais ainda daquela maneira.
Ou talvez não, já que uma semana depois ela foi vista numa varanda beijando um cara meio fraco de aparência.
O pior é que tem filmes que também conhecemos o final logo no primeiro episódio.
Eu, que estou de fora, fico no lucro e nem me abalo. Estava querendo mesmo é ver os erros de gravação.


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Jamerson Belfort Nogueira
@jambelfort
www.livroabertonoescuro.blogspot.com
jamys2006@gmail.com

(Texto Registrado. Mencione minha autoria)

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Meu livro de auto-ajude-se-a-si-mesmo



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"O Pior livro do Mundo"
(Sim, e é meu)

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Olá!
Antes de qualquer coisa, me apresentarei.
Meu nome é Jamerson e tenho vinte e poucos anos.

É bom deixar claro que este é o primeiro livro que eu escrevo.
Bom, o primeiro assim, deste porte. Os anteriores nem beiravam dez páginas.
Para alegria de quem resolver investir seu dinheirinho na publicação deste livro, tenho planos de que este aqui tenha também menos páginas, porém mais conteúdo.

Trata-se de um livro de auto-ajuda.

Auto-ajuda?
Sim.
E não: Não fique com essa cara.
‘Tá bom, eu também estou fazendo esta cara. Não sou fã deste tipo de literatura... e até nem sei se é literatura.
Mas pesquisei o tipo de livro mais comprado e conclui ser este o meu assunto.
E acho irrelevante o fato de eu jamais ter lido algum livro de auto-ajuda, levando em consideração os tipos de pessoas que andam fazendo este tipo de livro ultimamente...

Bom, o que me atormenta mesmo é que eu sei que os livros de auto-ajuda têm um objetivo específico... e este meu não tem.
Mas suspeito que os outros autores falam tão subjetivamente que acho que o objetivo acaba sendo atingido de alguma forma...

Que objetivo, então, terá este meu livro?
Não sei. E talvez este seja um bom motivo para você procurar fazer outra coisa... ou não. Mas não é por causa disso que eu serei subjetivo ao extremo, se quer saber.

Bom, que tipo de ajuda eu poderei te oferecer?
Sinceramente, também não sei.

O bom da auto-ajuda é que o “auto” indica que quem ajudará é você mesmo. Então qual é a minha utilidade? Morfologicamente falando, nenhuma. E isso me deixaria aliviado caso eu fosse extremamente egoísta.

Se você espera que eu “te ajude a se ajudar”, desista, pois não sei mesmo como fazer isso.
Ah! E não vou contar minha história de vida, pois acho que as minhas experiências não vão se encaixar na sua vida. Como humanista, não desejo minhas experiências nem para meu pior inimigo!

...E também porque não quero falar sobre minha vida.

Tudo bem, eu confesso. Minha vida é chata.

Mudando de assunto, ou melhor, retomando.

O que você, leitor, gostaria? O que espera lendo este livro?
Suspeito que eu deveria ter feito essa pesquisa antes de começar o livro, mas é tarde demais. Já comecei a escrevê-lo.
Reperguntando:
O que você, leitor, gostaria? O que espera?
Sei que você gostaria de melhorar de vida, ficar rico, buscar paz interior, encontrar respostas...
Seguindo orientações de um amigo advogado, já vou avisando que não prometo te ajudar nisso.
Sério. Não sei mesmo como eu poderia te ajudar.
Assim como você, também tenho minhas histórias conturbadas com dinheiro, ao estilo Tom e Jerry. Não sei o CEP da Paz Interior e acho que as respostas da vida não são mostradas num gabarito ao final do livro.

Falando em final do livro, digo, da vida, acho que não é nem lá, na velhice, que encontraremos as respostas. Estaremos tão preocupados com a proximidade do fim que não fará sentido gastar os preciosos minutos emendando as pistas para decifrar o sentido da vida.

Vida...
Eu não deveria falar dela. Não tenho moral pra falar dela.
Vou ser um pouco honesto e espero não te deixar sentido com isto:
Eu acho que a vida é algo sem sentido.

Bom, eu poderia defender esta minha tese, mas achei melhor parar naquele ponto-parágrafo depois da palavra “sentido”. Achei a tese bonita.

A vida é sem sentido, vazia. Tipo formigas que carregam folhas. Parece que elas sabem o que estão fazendo, mas não. Fazem as coisas por instinto. É bonito de se ver, confesso, mas só.
Não, a vida não tem sentido. Nossa diferença para a formiga é que nós damos sentidos à vida e que cada um dá o sentido que quiser, ou o que os outros querem, caso você seja daqueles que possuem televisão.

Já percebeu como existem muitos sentidos criados pelos outros? Nascemos com as prateleiras recheadas de opções, cada uma recomendando a melhor forma de se viver.
Talvez por imposição ou preguiça, geralmente optamos pelas escolhas feitas por nossos pais. Isso é o que geralmente acontece na religião e é exatamente o que me levou a ser um torcedor do Vasco da Gama.

Que sentidos você está dando para a sua vida?

Graças aos comerciais de televisão, até mesmo as pessoas que vivem na frente da televisão sabem que vivemos num sistema voltado ao consumo.
Nem sempre foi assim. E as pessoas daquele tempo, pelo que suspeito, sobreviviam.
Particularmente, não tenho ideia de como eles faziam isso sem o Google...

A questão é que temos arco e flecha nas mãos. Somos nós que decidimos para onde vamos atirar. Existem vários alvos, em várias direções, cada um pintado com algum interesse.
A religião pendurou todos os alvos lá em cima de nossas cabeças (estranhamente, o jeito mais difícil é o mais popular), cada alvo proclamando ser o melhor.
Os comerciantes, pra não te fazer errar, não usam um alvo, mas um outdoor! Ou centenas deles, como me informou um amigo agora.

Existem vários alvos, mas só lembro agora destes dois.

O importante é se perguntar: Quem está segurando o alvo para onde você está apontando? O que te faz pensar que este alvo é o mais adequado pra dar ordens à sua vida? E por que você permite? E por que as coisas mais idiotas vão parar nos Trend Topics do Twitter?

Lembrei de uma coisa.

Quando eu digo “vida sem sentido” não quero dizer que ela não tenha sentido algum.
Isso faz algum sentido pra você?
A vida sem sentido pode ter vários sentidos, mas nenhum deles faz sentido, tipo os judeus que acreditam que comer presunto é uma afronta à Deus.

E você faz parte disso, mesmo sem perceber. Pois você provavelmente faz parte da maioria da humanidade que sustenta os luxos da minoria da humanidade.
E se mata de estudar. E se mata de trabalhar. E se mata pra sustentar os filhos. Se mata tanto que quando morrer já está craque.
E todos nós, a exemplo das formigas e dos judeus, vamos virar pó.
E precisamos ser algo melhorzinho que ser pó.

Enquanto você está aí parado observando seus minutos se passando, a sua vida vai indo embora sem chance se repetição do minuto anterior.
O que você pretende fazer? O mesmo que todo mundo faz? Viver 'que nem' os outros? Ser apenas mais um no Excel do IBGE?

A vida é sua, tome ao menos as rédeas dela.

Caramba, quem sou eu pra te dar conselhos assim? Sou um funcionário do setor privado. Beiro os trinta anos. Nenhuma moça se interessa por mim. Tenho um faz-de-conta-corrente no banco. E não sei nem fazer livro de auto-ajuda!

Podemos enfeitar a vida e até encontrar a beleza nela, mas a beleza é subjetiva (ops, prometi não usar esta palavra?). A questão é que nem tudo que é belo faz sentido e nem tudo o que faz sentido é bonito de se ver, tipo uma prova de matemática ou uma operação de fimose...

Mas voltemos a falar sobre a vida. Ou melhor, sobre a vida sem sentido. Talvez não, mas você já sentiu que sua vida parece não fazer sentido algum? Chamam isso de adolescência. Fase boa... de se sair dela. Falo isso porque a minha foi terrível. Não falarei nela.
A questão é que essa sensação não vai embora com o tempo.
A menos que você ganhe na Lotomania, esse sentimento de Oh-Deus-Me-Explique-Tudo-PelAmorDeTi vai te perseguir feito música chata.

Eita, merda. Já estamos a muitas páginas lidas e não tenho falado nada que sei! Isso me preocupa. Melhor eu falar sobre algo mais interessante... ou pocurar um advogado.

Posso pensar um pouco? Talvez eu escreva um livro sobre algo que eu entenda.
Enquanto isso, que tal procurar algo mais interessante pra fazer, tipo deixar de ficar lendo livros de auto-ajuda!?

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Novelinha

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Narrador - Certo ditado diz que o que começa errado vai terminar errado. Isso talvez explique porque alguns relacionamentos são tão complicados. Nosso ancestral do sexo masculino costumava arrastar sua mulher puxando-as pelos cabelos. Assim, demonstrava que ela era posse dele. Não sei por que puxei esse assunto, mas quero concluir que a coisa mais normal num relacionamento é a briga. E é com uma briga que nossa história começa hoje.
Ele - Como assim você "se apaixonou"?
Ela - Não dá pra controlar. A pessoa certa aparece na nossa vida e as coisas acontecem naturalmente...
Ele - Pela terceira vez em um mês?
Ela - As coisas simplesmente aconteceram...
Ele - Mas você namora é comigo, Marcela. Parece que você tem dificuldade de lembrar que você é minha namorada.
Ela - Olha, esse lance de ser de alguém é complicado. Eu pertenço a mim mesma.
Ele - E eu pertenço ao Clube dos Idiotas, pelo visto.
Ela - Quando se ama, se deixa livre.
Ele - Livre pra ficar com a torcida do Flamengo?
Narrador - Permitam-me interromper um pouco essa conversa porque os ânimos estão exaltados. Mas lhes garanto que a briga está no nível das ideias. Ele gostava daquele jeito independente dela. Ela meio que gostava daquele ciumezinho dele. São três anos de namoro e... Opa! Um momento... Bom... Ela deu um belo tapa no rosto dele. E... Bem... Apareceu um cara pra separá-los.
Ele - Sua idiota!
Ela - Seu grosso!
Cara - Calma, gente. Mas por que vocês estão brigando?
Narrador - Essa pergunta é interessante. Lembro como se fosse ontem...
Ele - Seu nome é Marcela, né?
Ela - Sim. A gente se conhece?
Ele - Eu te sigo no Insta.
Ela - Ah.
Ele - Calma, calma, não sou um stalker.
Ela - Ah.
Narrador - Viram, amigos? Aquele climão não poderia resultar num bom namoro. Mas não é que deu? Isso reforça minha teoria de que essa coisas só acontecem quando as duas pessoas são bonitas.
Ela - Nossa, amor, já estamos juntos há um ano.
Ele - E eu te amo do mesmo jeito...
Narrador - Vocês não podem ver, mas agora eles estão se agarrando. Vou até ficar de costas pra não atrapalhar.
Ela - Amor, tu já ouviu falar de amor livre?
Ele - Claro, Cela. O verdadeiro amor só pode existir quando há liberdade. Se você ama, deixe-o livre, se voltar é porque...
Ela - Estou falando sobre relacionamentos abertos.
(silêncio)
Narrador - Pessoal... Sinto cheiro de treta.
Ela - Eu acho uma ideia linda, explorar o amor em sua expressão máxima.
Narrador - Pessoal... Vocês precisam ver a cara do rapaz. Ele não deu a mínima quando ela apareceu de cabelo azul-turquesa, que por sinal ficou bizarro. Nem quando ela foi ao aniversário da mãe evangélica dele vestindo, acreditem, uma micro-saia. Mas nada se comparava ao constrangimento daquele momento.
Ele - Nossa, dois anos de namoro já... lembro do começo de nossa história como se fosse hoje.
Ela - Olha, Cláudio Renato...
Narrador - Cláudio Renato?
Ela - Eu queria te apresentar a Clara...
Narrador - Cláudio Renato? E eu achando que meu nome era feio...
Ele - Oi, Clara. Você estuda com a Marcela?
Ela - Então...
Narrador - Gente, esse 'então' é tipo uma facada.
Ela - Eu estou gostando dela.
Ele - Gostando? Gostando tipo... gostando?
Clara - Gostando tipo gostando muuuito.
(silêncio)
Ela - A Clara é divertida, inteligente, meio nerd, canta, faz arquitetura, teatro, beija super bem...
(silêncio)
Ele - Tu veio apresentar ela pra mim? Parece que tu quer apresentar ela é para os teus pais!
Ela - Não é bem assim. Estamos ainda apenas nos conhecendo...
Ele - Pelo visto EU estou apenas ainda te conhecendo...
Ela - Nossa, esqueci que tu é muuuito antiquado.
Narrador - Ôrra...! Antiquado?
Ela - Ele é antiquado, sim!
(silêncio)
Narrador - Eh... eu sou o narrador... você... meio que... não deveria falar comigo.
Ela - É que tu sempre fica me criticando. A cor do meu cabelo, o tipo de roupa que eu uso...
Narrador - Eu apenas descrevo. Tenho que enriquecer com detalhes para as pessoas que estão me ouvindo.
Ela - Ah, meu amigo. Eu sei bem o que é criticar. Não aguento mais o machismo de vocês dois.
Ele - Machismo?
Ela - Já já eu falo contigo, Cláudio. Fica aí na tua.
Narrador - Olha, minha querida...
Ela - Ha-ha-ha. Tua querida? really? Eu exijo uma mulher pra narrar minha vida.
Narrador - Ha-ha-ha. Tu tá é doida.
Clara - Pessoal, eu também trabalho como narradora...
Ele - Grandes bosta.
Ela - Per-fei-to, Clara! Sinta-se contratada!
Narrador - Marcela, você não pode simplesmente me trocar assim.
Ele - Bicho, fica na tua. Marcela, você não pode simplesmente me trocar assim.
Ela - Por que não? Vai querer me arrastar pelos cabelos agora?
Ele - Não, eu... espera. Clara, vou te avisando que a Marcela é assim. Ela pode te trocar por outra pessoa assim, do nada.
Clara - Olha, como sou a narradora agora, tenho acesso ao relatório do passado e do futuro da vida dela. E estou lendo aqui na ficha que eu e ela seremos muito felizes. Tipo assim, pra sempre. Muitas viagens, muitos vinhos, ótimas cenas picantes...
Ele - E eu? Como fico?
Clara - Desculpa, eu só tenho acesso aos dados DESTE relacionamento. Você está fora dele, lembra?
Ela - Girl power!
Ele - Eu só... Era pra esta ser nossa linda história de amor.
Ela - Mas é uma linda história de amor. Eu finalmente encontrei o meu amor.
Ele - Pôxa, que legal. Pena que eu esqueci os fogos de artifício no bolso da minha outra calça...
Ela - ôh, sem sarcasmo. Quero que você fique feliz por mim.
Narrador - Oi, pessoal, lembram-se de mim? Caso não, sou eu, o narrador.
Ela - Ex-narrador, meu querido!
Ele - vocês são loucos...
Narrador - Continuando. Só passei pra dizer uma coisa. Desculpa, Marcela, eu fui grosso contigo. Na boa, quero que você seja feliz nessa sua nova jornada.
Ele - Alguém me tira daqui!!!
Narrador - Cláudio, você quer que a história termine bem, mas na verdade você só quer que a história termine do SEU jeito. É um pouco egoísta de sua parte, não?
Ele - Mas eu não fiz nada de errado. Eu sou um cara muito do bem. Carambas, eu estudo violoncelo!
Ela - Nossa, como eu detestava aquele violoncelo...
Clara - Mas a vida não é um conto de fadas onde tudo sempre terminam bem, onde tudo tem uma lição de moral. Estamos na vida real, amigo.
Ela - É foda mesmo.
Clara - Não tem como saber se vamos nos dar bem ou não. Às vezes independe da gente.
Narrador - E no começo deixei bem claro que era uma história avulsa sobre um relacionamento que começou errado e terminou errado. Nem todo lance é assim. Sei de romance que começou terrível e terminou lindo, mas o seu deu o azar de ser.
Clara - Isso! Uma hora o relacionamento de vocês iria ser parado na blitz. E você nem percebeu que ela estava com o amor vencido já há um tempo.
Ela - Um ano. Dois meses. Treze dias.
(silêncio)
Ele - Posso estar maluco, mas acho que aprendi alguma coisa com vocês. Eu tenho que ficar atento ao meu namoro. Fazer meu melhor, independentemente do que vai acontecer. Mas saber que às vezes a melhor coisa que pode acontecer em um namoro é ele ter um fim, sem forçar a barra.
Narrador – Sendo assim, vou quebrar teu galho e revelarei o que vai acontecer em teu futuro. Você vai ficar um tempo ouvindo Los Hermanos, O Teatro Mágico e Guilherme Arantes, mas depois vai ficar bem. Tua historia será gravada em áudio. E ela vai rodar de celular em celular. Até que ela encontrará alguém, em algum lugar, que precisava ouvir isso tudo e finalmente saberá tomar a atitude certa.
Ela – Ou pelo menos vai se divertir com essa tua história maluca...
Ele – Vão se lascar vocês tudinho rs


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